Sunday, March 30, 2014

"Futuravôeu"



                Imagino que ser pai seja algo emocionante, apesar de todo esforço sobre-humano que isso demanda. Mas se eu pudesse escolher, optaria por ser logo avô. Talvez seja ingenuidade, mas acho que os avós têm todo aquele ar mágico, que inexplicavelmente nos transfere uma boa energia, carregada de muito carinho e afeto.
             Esse texto, porém, não pretende ser “fofinho e bonitinho”. Na verdade, trata-se de um “desespero” meu, quiçá equivocado. Não só isso, mas quero falar também um pouco a respeito de algumas histórias que me marcaram.
                Estava eu nessas minhas “voltas noturnas” pelo calçadão da praia de Boa Viagem (eis a maior vantagem de se trabalhar lá), quando vi um senhor de nítida idade avançada, acompanhado de um garotinho que olhava fascinado enquanto o seu (suponho) avô contava histórias de sua distante infância.
                Eles estavam perto de um desses vários quiosques e eu resolvi parar para assisti-los. Pedi uma água de coco – foi involuntário, eu nem gosto – como desculpa pra ficar ali, parado e discretamente atento.
                A história era boba, mas o avô se esforçou para dar um tom jocoso ao falar de seu primeiro amor, que não foi correspondido. Impossível não se identificar! Particularmente, sou colecionador de amores não correspondidos – meus e dos outros, fora os vários que não pude corresponder (minhas sinceras desculpas).
                Terminada a história, eu senti uma leveza incomum, dessas que nos acometem quando fazemos algo muito gratificante ou quando, depois de uma longa conversa, nos despedimos de um amigo que não encontrávamos há tempos. Acredito que os risos da criança e as feições de alegrias no rosto enrugado do avô foram os responsáveis por essa sensação.
                Os dois seguiram a jornada ao longo do calçadão, de mãos dadas, e eu os acompanhei por alguns segundos com o olhar. Foi aí que, espontaneamente, fiz um dos exercícios mentais que mais me aprazem: imaginar-me na situação do outro. Colocar-me na posição de neto seria muito fácil, embora não tenha lembranças nítidas de meus avôs; ambos partiram muito cedo. As avós são mais resistentes, então tive a chance de ser amado pelas duas. Resolvi então me imaginar como avô, igual àquele que passeava com seu netinho.
                O que eu teria para contar-lhe? Meu Deus, tão pouco, quase nada! O que é um avô sem histórias interessantes para contar? Seria o mesmo que um livro de páginas em branco. Foi aí que me bateu o desespero. Tudo bem, alguns de vocês podem pensar que não vivi o suficiente, mas conheço gente que aos 18 anos já tem mais histórias pra contar do que eu!
                Poderia falar de meus amores. Todos aqueles que tive (contáveis em um par de mãos), muitos em segredo, alguns poucos correspondidos... Mas não é o suficiente. Peripécias do Colégio Militar. Confesso ter algumas, mas seriam o bastante apenas para duas ou três tardes de conversa com o meu neto. Talvez livros e filmes (estes absurdamente maiores do que aqueles em número), mas uma criança não teria muita paciência para as minhas análises e eu acabaria sendo o avô culto chato. Minhas conquistas acadêmicas não seriam muito interessantes. As viagens também são pouco numerosas. Céus! Acho que o meu neto teria mais relatos que eu!
                Lembrei então de um professor que tive, por quem tenho grande admiração. Certo dia estávamos conversando e ele me contou brevemente a história de sua juventude. Eu quase chorei. Quem me conhece bem sabe da facilidade que tenho em ficar emocionado. Uma história de superação digna de ser relatada por Rachel de Queiroz ou Graciliano Ramos.
                Imaginem o que é uma pessoa só ter água e farinha para comer, morando sozinho em Recife, para realizar o sonho de ser o primeiro da família a ter o Ensino Superior. Por mais que consigamos aproximar as minhas palavras à alguma imagem mental, nunca saberemos o que é de fato estar nessa situação pela simples razão de que nunca passamos por isso. Comparada com a juventude dele, chego a ter certa vergonha do quão cômoda e fácil é a minha realidade. Essa seria uma história digna de se contar a um neto e com todo orgulho que um ser pode ter dizer que superou tudo aquilo e garantir que o pequenino nunca passará por isso.
                Certamente contaria ao meu neto as histórias de seus bisavôs. Meu pai, que chegou a trabalhar com um papelão no sapato para cobrir o buraco na sola e minha mãe que saía de casa às cinco da manhã para trabalhar em expediente integral, estudar à noite, e que só voltava após as onze, depois de enfrentar os trens abarrotados da cidade de São Paulo. E que fizeram (ainda fazem!) o máximo para que eu não passe por nada sequer parecido com isso.
                Todo esse devaneio durou bem menos tempo do que o que eu estou levando para escrever esse texto e pensando em desistir de publicar. Mas não pense que o objetivo aqui é tratar de histórias tristes. Elas são tristes, com finais felizes, e isso é o que faz delas histórias tão interessantes e especiais.
                Portanto, meu futuro neto (claro, pode ser uma garota – acho que até prefiro uma netinha pra mimar – e nem precisa ser no singular), desculpe o seu futuro avô por agora, que ainda não tem muitas boas histórias para contar. Mas fica aqui a promessa de que buscarei acontecimentos dignos de serem narrados por mais de 1001 dias, tardes e noites, porque eu quero saber o prazer que é ver aquele sorriso, aquela carinha de deslumbramento e saber que sou a razão deles, esboçando o mesmo sorriso de agora (sou um tonto), porém mais amarelado e cercado por rugas gradativa e carinhosamente colocadas em meu rosto pelo tempo.
                Com o amor de um futuro avô, B.


Tuesday, December 31, 2013

Feliz Ano Novo!



                2013 chega ao fim hoje, finalmente! Não sei para vocês, mas esse ano não foi muito bom para mim – particularmente, 2010 tem sido, até então, insuperável por uma série de razões. Então, estou mais feliz com o término de 2013 do que com a chegada de 2014 – embora, em termos práticos, isso signifique a mesma coisa.
                Não farei aqui uma retrospectiva desse ano por duas razões: porque não vale a pena lembrar todas as coisas negativas e também porque eu não me lembro dos fatos, nem da sua precisa ordem cronológica.
                Espero que 2014 traga mais Amor. Para mim e para todos, porque isso é essencial. Mais dinheiro é sempre bom. Principalmente para que eu possa pagar os débitos, que surgiram de forma espontânea e inexplicável, como formigas atrás de doce, nesse fim de ano. Se não for pedir demais, desejo filmes, músicas e livros melhores, o esforço criativo em 2013 foi meio deficitário.
                Desejo ainda mais disposição, para que nós consigamos levantar da cama quentinha e aguentar aquela aula chata na faculdade ou aqueles alunos insuportáveis, que sempre se fazem presentes nas melhores turmas. Paciência é bônus, mas pode colocar na lista também.
                Esse vai ser difícil. 2014 vai ter de entendê-lo como um desafio! Eu gostaria muito de ver e sair mais com os meus amigos. Essa vida adulta recém-iniciada já está me trazendo problemas, é quase uma odisseia conseguir conciliar agendas pra sair. Então, 2014, por favor disponibilize mais tempo livre. Quero conversar trivialidades com amigos, relembrar a infância, ler meus livros atrasados, viajar e gozar do meu ócio nitidamente improdutivo.
                Nessa altura eu ia falar do art. 5º da CF/88 e outros dispositivos legais legais (não digitei duas vezes por erro não), mas vou pular porque faculdade é só no ano que vem! Ah, a propósito, 2014 poderia ter colocado minhas aulas pra depois... Minus 1! Mas já que eu falei em faculdade, gostaria que as pessoas que compõem a FDR fossem mais “de boa”, e parassem de discutir sobre tudo e qualquer coisa. Mas esse é um pedido mais inútil que o do parágrafo anterior.
                Eu poderia encerrar o meu texto com aquela música clichê do John Lennon. Seria clichê. Mas sempre encaixa bem! Não o farei. Mas é claro que o desejo de paz, generosidade e compreensão ficam já subentendidos. Todo mundo deseja isso – ou melhor, todo mundo escreve ou diz isso depois de falar “eu desejo...” – o que, convenhamos, não é, na maioria das vezes, muito sincero. Mas fomos educados assim, então, façamos assim! – Ah, só pra constar, o meu desejo é sincero.
                Para encerrar – o que eu deveria ter feito no parágrafo anterior – caso a minha lista seja muito pretensiosa, 2014 pode substituir tudo por um pedido só! DESEJO QUE todos nós sejamos mais felizes! Para que possamos dizer mais “life is a beach” do que “life is a bitch”. Hahaha.
                Feliz Ano Novo! Beijos e abraços!


Sunday, November 3, 2013

É tarde



            É tarde! Mas quero pedir desculpas por mim, pelas besteiras que fiz, pelos momentos especiais que estraguei. Desculpas pela minha incapacidade de expressar aquilo que é/foi muito maior que eu: o amor que senti por você. Acho que era grande demais para ser expressado em palavras (e, muito mais complicado, em ações).
             É tarde, eu sei. Mas eu tinha que tirar isso do peito para seguir adiante. Estar preso a você durante estes últimos anos fez com que eu refletisse muito sobre tudo. Em especial, sobre o amor que senti por você e o que tenho por mim. Constatei que aquele sempre fora maior que este.
             É tarde, eu sei. É tarde para nós. Mas, como todo fim é sempre um novo começo, é cedo! É cedo para você. E para mim. É cedo para recomeçarmos, reconstruirmos e traçarmos os nossos próprios caminhos.
                Acho que é aqui que a vida nos separa, mais uma vez, (definitivamente... talvez não). Mas esse, prometo, será o meu último adeus. Daqui, o destino assume.
                É tarde! Mas é também “tempo de pêssegos”.


Saturday, September 7, 2013

Confissão-desabafo I



                Músicas “instrumentais” sempre me ajudaram a transformar pensamentos e emoções em palavras. Acho que uma música sem letra permite que a interpretação seja mais ampla e subjetiva, adequando-se, assim, à sensação que desejamos em determinado momento.
                Para muitos dos meus textos, ouvia versões instrumentais de Richard Clayderman, Henry Mancini e James Horner. De alguma forma, elas sempre me ajudaram a expressar com menos dificuldade o que sinto. Possivelmente estou me repetindo, mas volto a dizer: traduzir sentimentos em palavras é uma arte difícil. Pelo menos pra mim.
             O problema é que entre minhas intenções e o leitor, relação que é intermediada pelas palavras do texto, o sentido se perde, ainda que não totalmente. Acredito que se as pessoas lessem o que escrevo, ouvindo o que eu ouvi no momento de elaboração, o sentimento compreendido seria próximo do original, aquele que me levou a escrever...
             Mas ainda não cheguei ao ponto de origem do meu texto. O título não foi colocado ali por acaso. Acontece que hoje, 06 de setembro de 2013, passei o dia com uma música na cabeça. Uma dessas instrumentais que mexe profundamente com qualquer ser humano sensível. Alguns vão rir, outros vão me julgar idiota... a música que me inspirou é do conhecido filme “Le fabuleux destin d’Amélie Poulain”, um dos meus prediletos.
              Descobri hoje, em conversa com a “culpada” de não conseguir tirar essa música da cabeça, Maria Eduarda, que há pessoas que acham o filme monótono e sem sentido. Uma pena. A essas pessoas faltam sensibilidade e capacidade de compreensão daquilo que não é óbvio. “Falta poesia!” – foram as duas palavras que usei para resumir metaforicamente isso tudo. Não farei comentários sobre o filme. Sobre esse especificamente não. É o tipo de obra que você deve apreciar e captar toda a magia sinestésica transmitida. Vamos ao ponto...
             No final de 2007, comecei a namorar uma pessoa muito especial. O que sentia por ela era inquestionavelmente forte e verdadeiro e cresceu com o passar do tempo. A possível certeza de que foi amor, entretanto, só me ocorreu após o doloroso fim do relacionamento um ano e dois meses depois. A essa época, éramos jovens, imaturos e inseguros. Mas uma das poucas certezas que eu tinha era do meu sentimento por ela.
                O tempo passou, deixamos de nos ver, falar um com outro... mas não a esqueci. E talvez nunca consiga. A questão é que depois dela, não mais senti algo tão forte e certo por ninguém. Será que desperdicei a minha única chance?
                A confissão é simples: sinto falta de amar. A cada dia, mais me parece que perdi essa capacidade e isso me deixa profundamente triste. A verdade é que tenho afastado todos aqueles que se aproximam, chegam perto demais. É contraditório, sinto falta daquilo que tenho medo. Medo de amar, de me envolver, de me dedicar a um sentimento que pode, no fim, me fazer sofrer (mais uma vez).
             Estou sendo dramático, eu sei.  Mas sou um deslocado no espaço-tempo, inapropriado para o padrão atual. Paciência. Sou antiquado, idealista e, em certa medida, romântico. A dinâmica de um relacionamento funciona para mim de forma diferente, que acho não convir tentar, sem expectativa alguma de sucesso, explicar aqui.
                Coincidentemente, parei de escrever esse texto para assistir “((500) Days of Summer)”. Filme bastante apropriado para esse momento, que, por motivos de óbvia identificação, entrará na lista dos preferidos. Eu e Tom (protagonista do filme) temos bastante em comum, a começar por essa “estúpida” crença no amor, que nos leva a não aproveitar tanto a vida, sei que vocês entendem o que quero dizer.
                Não irei me alongar, são 3 da manhã e estou cansado (mas continuo ouvindo a melodia de Amélie Poulain). Adianto as desculpas pelo fim meio depressivo a vir, mas tentem enxergar a beleza das metáforas. Até mais.

Aqui ficam registrados o meu grito no vácuo, o meu gesto no escuro, o pedido para que o Amor volte a colorir os meus dias gris. Sinto-me pronto para amar novamente.


 "Sans toi, les émotions d'aujourd'hui ne seraient que la peau morte des émotions d'autrefois"

Saturday, July 6, 2013

Noite de insônia


               Em uma dessas noites chuvosas, em que a insônia se alia às lembranças evitadas, comecei a pensar na vida com o objetivo de manter longe determinadas memórias. Por alguma razão ainda desconhecida, fiz-me a simples pergunta “quem sou eu?”, e imaginem o espanto ao perceber que eu não tinha a resposta.
               Quem sou eu? Tentei encontrar algo que desse um fim de forma satisfatória ao questionamento, mas os longos minutos de esforço “psicológico-filosófico” foram vãos. Então resolvi mudar a perspectiva – esse é um truque que faço há algum tempo – sempre que não consigo responder uma pergunta ou resolver um problema, dou-lhe uma nova interpretação.
             Passei então a considerar a seguinte questão: “quem sou eu para um determinado alguém?”. Juntando as respostas e isolando os elementos comuns, teria a minha resposta! Claro, “determinado alguém” teriam de ser pessoas que me conhecessem bem e tivessem uma ideia concreta de quem sou.
               Obviamente, não tive coragem de sair por aí perguntado aos meus amigos e parentes quem eles achavam que eu fosse – parece coisa de louco! Fiz diferente: tentei me colocar no lugar deles e imaginar quais seriam as suas respostas – admito ser este um recurso bem infantil, mas, no fim, acabou sendo divertido e até interessante.
               Entretanto, um pequeno (bem pequeno e seleto) grupo de pessoas me trouxe um novo desafio: “quem sou eu para as minhas ex-namoradas?”. Elas não somente me conheceram muito bem, como tiveram mais intimidade (não necessariamente sexual) do que todas as outras pessoas que eu conheço. E mais: após o fim do namoro, elas, certamente, passaram a me enxergar de outra forma. Talvez de forma não tão positiva quanto no início. Talvez. Não, decerto. Definitivamente.
               Bem, a questão é que abandonei a busca (interminável) por saber quem eu sou e passei a me perguntar “no que me transformei para elas?”. Mas essa, infelizmente, é uma pergunta que restará suspensa.
              Ainda nessa noite, a essa altura, já madrugada, resolvi me deixar vencer pelas lembranças que vinha evitando. Acendi a luz do quarto, caminhei até o guarda-roupas e abri a porta da parte superior. Hesitei e segurei a respiração. Expirei em seguida, com força incomum para o simples ato de respirar. Tirei as coisas que estavam na frente e, do fundo, puxei uma caixa bonita, dessas de presente que se compra em papelarias para darmos a pessoas queridas. Dentro dela há provas materiais do que, um dia, foi felicidade.
            Voltei a sentar na cama, com a caixa sobre o colo. Suspirei e abri. Fotografias, cartas, bilhetes, um anel, conversas de folhas rasgadas de caderno e um pequenino vidro de perfume. Esse último item é o que (carinhosamente) chamo de “doce aroma da tortura”. Olhei as fotos, li um ou outro bilhete e coloquei tudo de volta na caixa.
              Peguei o frasco e fiquei olhando. Apaguei novamente a luz do quarto, acomodei-me na cama e comecei a desrosquear a tampa arredondada. Depois de abrir, mesmo sem nada enxergar, fechei os olhos, levei o vidrinho até o nariz e inalei o perfume. O olfato me revelou lembranças felizes. Muitas. Uma enxurrada delas.
               Espontaneamente, uma lágrima escorreu até a minha boca e eu pude sentir, ainda entorpecido das boas memórias, o seu leve gosto salgado e despertei daquele “sonho-passado”. Uma overdose de doces memórias me trouxe a necessidade da salgada realidade. Fechei novamente o frasquinho e coloquei-o junto aos outros objetos. A caixa, guardei e não mais mexi.
               “Lembranças serão sempre lembranças até que o tempo se encarregue de torná-las olvidáveis (ou não). A luta contra boas memórias é vã. Alimentar-se delas também, afinal, não são nada além de uma realidade que existiu e acabou.” (Esse último trecho foi roubado de mim mesmo em conversa com uma grandessíssima amiga).