Imagino
que ser pai seja algo emocionante, apesar de todo esforço sobre-humano que isso
demanda. Mas se eu pudesse escolher, optaria por ser logo avô. Talvez seja
ingenuidade, mas acho que os avós têm todo aquele ar mágico, que inexplicavelmente
nos transfere uma boa energia, carregada de muito carinho e afeto.
Esse
texto, porém, não pretende ser “fofinho e bonitinho”. Na verdade, trata-se de
um “desespero” meu, quiçá equivocado. Não só isso, mas quero falar também um
pouco a respeito de algumas histórias que me marcaram.
Estava
eu nessas minhas “voltas noturnas” pelo calçadão da praia de Boa Viagem (eis a
maior vantagem de se trabalhar lá), quando vi um senhor de nítida idade
avançada, acompanhado de um garotinho que olhava fascinado enquanto o seu
(suponho) avô contava histórias de sua distante infância.
Eles
estavam perto de um desses vários quiosques e eu resolvi parar para
assisti-los. Pedi uma água de coco – foi involuntário, eu nem gosto – como
desculpa pra ficar ali, parado e discretamente atento.
A
história era boba, mas o avô se esforçou para dar um tom jocoso ao falar de seu
primeiro amor, que não foi correspondido. Impossível não se identificar!
Particularmente, sou colecionador de amores não correspondidos – meus e dos
outros, fora os vários que não pude corresponder (minhas sinceras desculpas).
Terminada
a história, eu senti uma leveza incomum, dessas que nos acometem quando fazemos
algo muito gratificante ou quando, depois de uma longa conversa, nos despedimos
de um amigo que não encontrávamos há tempos. Acredito que os risos da criança e
as feições de alegrias no rosto enrugado do avô foram os responsáveis por essa
sensação.
Os
dois seguiram a jornada ao longo do calçadão, de mãos dadas, e eu os acompanhei
por alguns segundos com o olhar. Foi aí que, espontaneamente, fiz um dos
exercícios mentais que mais me aprazem: imaginar-me na situação do outro.
Colocar-me na posição de neto seria muito fácil, embora não tenha lembranças
nítidas de meus avôs; ambos partiram muito cedo. As avós são mais resistentes,
então tive a chance de ser amado pelas duas. Resolvi então me imaginar como
avô, igual àquele que passeava com seu netinho.
O
que eu teria para contar-lhe? Meu Deus, tão pouco, quase nada! O que é um avô
sem histórias interessantes para contar? Seria o mesmo que um livro de páginas
em branco. Foi aí que me bateu o desespero. Tudo bem, alguns de vocês podem
pensar que não vivi o suficiente, mas conheço gente que aos 18 anos já tem mais
histórias pra contar do que eu!
Poderia
falar de meus amores. Todos aqueles que tive (contáveis em um par de mãos),
muitos em segredo, alguns poucos correspondidos... Mas não é o suficiente.
Peripécias do Colégio Militar. Confesso ter algumas, mas seriam o bastante
apenas para duas ou três tardes de conversa com o meu neto. Talvez livros e
filmes (estes absurdamente maiores do que aqueles em número), mas uma criança
não teria muita paciência para as minhas análises e eu acabaria sendo o avô
culto chato. Minhas conquistas acadêmicas não seriam muito interessantes. As
viagens também são pouco numerosas. Céus! Acho que o meu neto teria mais
relatos que eu!
Lembrei
então de um professor que tive, por quem tenho grande admiração. Certo dia
estávamos conversando e ele me contou brevemente a história de sua juventude.
Eu quase chorei. Quem me conhece bem sabe da facilidade que tenho em ficar
emocionado. Uma história de superação digna de ser relatada por Rachel de
Queiroz ou Graciliano Ramos.
Imaginem
o que é uma pessoa só ter água e farinha para comer, morando sozinho em Recife,
para realizar o sonho de ser o primeiro da família a ter o Ensino Superior. Por
mais que consigamos aproximar as minhas palavras à alguma imagem mental, nunca
saberemos o que é de fato estar nessa situação pela simples razão de que nunca
passamos por isso. Comparada com a juventude dele, chego a ter certa vergonha
do quão cômoda e fácil é a minha realidade. Essa seria uma história digna de se
contar a um neto e com todo orgulho que um ser pode ter dizer que superou tudo
aquilo e garantir que o pequenino nunca passará por isso.
Certamente
contaria ao meu neto as histórias de seus bisavôs. Meu pai, que chegou a
trabalhar com um papelão no sapato para cobrir o buraco na sola e minha mãe que
saía de casa às cinco da manhã para trabalhar em expediente integral, estudar à
noite, e que só voltava após as onze, depois de enfrentar os trens abarrotados
da cidade de São Paulo. E que fizeram (ainda fazem!) o máximo para que eu não
passe por nada sequer parecido com isso.
Todo
esse devaneio durou bem menos tempo do que o que eu estou levando para escrever
esse texto e pensando em desistir de publicar. Mas não pense que o objetivo
aqui é tratar de histórias tristes. Elas são tristes, com finais felizes, e
isso é o que faz delas histórias tão interessantes e especiais.
Portanto,
meu futuro neto (claro, pode ser uma garota – acho que até prefiro uma netinha
pra mimar – e nem precisa ser no singular), desculpe o seu futuro avô por
agora, que ainda não tem muitas boas histórias para contar. Mas fica aqui a
promessa de que buscarei acontecimentos dignos de serem narrados por mais de
1001 dias, tardes e noites, porque eu quero saber o prazer que é ver aquele
sorriso, aquela carinha de deslumbramento e saber que sou a razão deles, esboçando
o mesmo sorriso de agora (sou um tonto), porém mais amarelado e cercado por
rugas gradativa e carinhosamente colocadas em meu rosto pelo tempo.
Com o amor de um futuro avô, B.

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