Saturday, July 6, 2013

Noite de insônia


               Em uma dessas noites chuvosas, em que a insônia se alia às lembranças evitadas, comecei a pensar na vida com o objetivo de manter longe determinadas memórias. Por alguma razão ainda desconhecida, fiz-me a simples pergunta “quem sou eu?”, e imaginem o espanto ao perceber que eu não tinha a resposta.
               Quem sou eu? Tentei encontrar algo que desse um fim de forma satisfatória ao questionamento, mas os longos minutos de esforço “psicológico-filosófico” foram vãos. Então resolvi mudar a perspectiva – esse é um truque que faço há algum tempo – sempre que não consigo responder uma pergunta ou resolver um problema, dou-lhe uma nova interpretação.
             Passei então a considerar a seguinte questão: “quem sou eu para um determinado alguém?”. Juntando as respostas e isolando os elementos comuns, teria a minha resposta! Claro, “determinado alguém” teriam de ser pessoas que me conhecessem bem e tivessem uma ideia concreta de quem sou.
               Obviamente, não tive coragem de sair por aí perguntado aos meus amigos e parentes quem eles achavam que eu fosse – parece coisa de louco! Fiz diferente: tentei me colocar no lugar deles e imaginar quais seriam as suas respostas – admito ser este um recurso bem infantil, mas, no fim, acabou sendo divertido e até interessante.
               Entretanto, um pequeno (bem pequeno e seleto) grupo de pessoas me trouxe um novo desafio: “quem sou eu para as minhas ex-namoradas?”. Elas não somente me conheceram muito bem, como tiveram mais intimidade (não necessariamente sexual) do que todas as outras pessoas que eu conheço. E mais: após o fim do namoro, elas, certamente, passaram a me enxergar de outra forma. Talvez de forma não tão positiva quanto no início. Talvez. Não, decerto. Definitivamente.
               Bem, a questão é que abandonei a busca (interminável) por saber quem eu sou e passei a me perguntar “no que me transformei para elas?”. Mas essa, infelizmente, é uma pergunta que restará suspensa.
              Ainda nessa noite, a essa altura, já madrugada, resolvi me deixar vencer pelas lembranças que vinha evitando. Acendi a luz do quarto, caminhei até o guarda-roupas e abri a porta da parte superior. Hesitei e segurei a respiração. Expirei em seguida, com força incomum para o simples ato de respirar. Tirei as coisas que estavam na frente e, do fundo, puxei uma caixa bonita, dessas de presente que se compra em papelarias para darmos a pessoas queridas. Dentro dela há provas materiais do que, um dia, foi felicidade.
            Voltei a sentar na cama, com a caixa sobre o colo. Suspirei e abri. Fotografias, cartas, bilhetes, um anel, conversas de folhas rasgadas de caderno e um pequenino vidro de perfume. Esse último item é o que (carinhosamente) chamo de “doce aroma da tortura”. Olhei as fotos, li um ou outro bilhete e coloquei tudo de volta na caixa.
              Peguei o frasco e fiquei olhando. Apaguei novamente a luz do quarto, acomodei-me na cama e comecei a desrosquear a tampa arredondada. Depois de abrir, mesmo sem nada enxergar, fechei os olhos, levei o vidrinho até o nariz e inalei o perfume. O olfato me revelou lembranças felizes. Muitas. Uma enxurrada delas.
               Espontaneamente, uma lágrima escorreu até a minha boca e eu pude sentir, ainda entorpecido das boas memórias, o seu leve gosto salgado e despertei daquele “sonho-passado”. Uma overdose de doces memórias me trouxe a necessidade da salgada realidade. Fechei novamente o frasquinho e coloquei-o junto aos outros objetos. A caixa, guardei e não mais mexi.
               “Lembranças serão sempre lembranças até que o tempo se encarregue de torná-las olvidáveis (ou não). A luta contra boas memórias é vã. Alimentar-se delas também, afinal, não são nada além de uma realidade que existiu e acabou.” (Esse último trecho foi roubado de mim mesmo em conversa com uma grandessíssima amiga).
 


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