Ele não queria comida. Como um
ser humano carente, ele queria companhia, um carinho, um afago. Naquele
momento, senti-me menos humano que o cão que me acompanhava. Percebi ali o que
significava ser livre de preconceitos. Ele não sabia quem eu era, o que fazia,
que língua falava, que credo cultuava... eu estava ali e ele, ao meu lado, e
aquilo era tudo.
Foram os cinquenta passos mais
companheiros que já tive em vida. Ele não me julgava, não me questionava,
olhava para mim como se admirasse as árvores em primavera, e quando retribuí os
seus olhares afetuosos, juro que vi o que parecia um esboço de sorriso!
Inacreditável como a felicidade se fez presente de forma tão simples e marcante
naquela curta caminhada de alguns metros.
Um cão. Um cão me trouxera uma
felicidade simples e estranha, que nunca havia experimentado antes. A alegria
de ver a pureza tão escassa nos homens em um animal tratado como inferior... Nós
somos tão pequenos.
Um cão. Que naquele momento era
como uma “Baleia”. “Baleia”, talvez o mais humano dos animais, acompanhou-me,
possivelmente, por instantes para mostrar que a felicidade consiste em espalhar
compreensão gratuitamente. Que só é feliz aquele que está livre dos julgamentos
e taxações.
Um cão. E eu achava que a
sapiência era exclusividade humana... “Homem pequeno, homem arrogante, ainda
hás de aprender muito com a natureza. Ela tem a ensinar aquilo que não se pode
ser colocado nos livros. Aquilo que foge à captação sensível humana. Os
sentidos nos deixam limitados, sabias? Principalmente porque não podemos sentir
as nossas limitações”.
Um cão. As pessoas nos olhavam
como se fôssemos uma criatura única, estranha e disforme. Olhares invejosos,
apaixonados, esperançosos. E, como se ele também fosse capaz de ler os olhos
voltados a nós, diminui o ritmo dos passos, deixa de estar ao meu lado e passa
a vigiar a minha retaguarda, como um amigo que assiste o outro partir.
Um cão. Parado. Olho para trás e
vejo que ele me observa contente, com um ar de agradecimento por uma simples
companhia na caminhada. Dali, ele seguiu para um grupo de pessoas que conversavam
debaixo de uma árvore.
Um cão foi distribuir mais
felicidade.

Como sempre, você escreve muito bem Bruninho <3
ReplyDelete