Saturday, November 10, 2012

A visão poética do cotidiano: Um cão



     Ele não queria comida. Como um ser humano carente, ele queria companhia, um carinho, um afago. Naquele momento, senti-me menos humano que o cão que me acompanhava. Percebi ali o que significava ser livre de preconceitos. Ele não sabia quem eu era, o que fazia, que língua falava, que credo cultuava... eu estava ali e ele, ao meu lado, e aquilo era tudo.
     Foram os cinquenta passos mais companheiros que já tive em vida. Ele não me julgava, não me questionava, olhava para mim como se admirasse as árvores em primavera, e quando retribuí os seus olhares afetuosos, juro que vi o que parecia um esboço de sorriso! Inacreditável como a felicidade se fez presente de forma tão simples e marcante naquela curta caminhada de alguns metros.
     Um cão. Um cão me trouxera uma felicidade simples e estranha, que nunca havia experimentado antes. A alegria de ver a pureza tão escassa nos homens em um animal tratado como inferior... Nós somos tão pequenos.
     Um cão. Que naquele momento era como uma “Baleia”. “Baleia”, talvez o mais humano dos animais, acompanhou-me, possivelmente, por instantes para mostrar que a felicidade consiste em espalhar compreensão gratuitamente. Que só é feliz aquele que está livre dos julgamentos e taxações.
     Um cão. E eu achava que a sapiência era exclusividade humana... “Homem pequeno, homem arrogante, ainda hás de aprender muito com a natureza. Ela tem a ensinar aquilo que não se pode ser colocado nos livros. Aquilo que foge à captação sensível humana. Os sentidos nos deixam limitados, sabias? Principalmente porque não podemos sentir as nossas limitações”.
     Um cão. As pessoas nos olhavam como se fôssemos uma criatura única, estranha e disforme. Olhares invejosos, apaixonados, esperançosos. E, como se ele também fosse capaz de ler os olhos voltados a nós, diminui o ritmo dos passos, deixa de estar ao meu lado e passa a vigiar a minha retaguarda, como um amigo que assiste o outro partir.
     Um cão. Parado. Olho para trás e vejo que ele me observa contente, com um ar de agradecimento por uma simples companhia na caminhada. Dali, ele seguiu para um grupo de pessoas que conversavam debaixo de uma árvore.
     Um cão foi distribuir mais felicidade.



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