Sunday, November 18, 2012

A visão poética do cotidiano: a realidade



     E foi assim, num fim de tarde típico da cidade, passando pelo Recife Antigo, que vi uma beleza incomum no lixo. Em vez de desprezá-lo, como usualmente acontece, eu fiz diferente, olhei pra ele com atenção e percebi a sua beleza oculta: agrupado de maneira disforme e aleatória, suas multicores lembravam um quadro de Kandinsky.
     Pouco depois, percebo que os “bichos humanos” marginalizados tiravam daquela tela vívida o seu alimento. Ali a sinestesia era concreta e perceptível: para cada tom, um cheiro incômodo. Para cada pessoa, um sentimento angustiante, seguido de um calafrio.
     Presenciei, naqueles poucos minutos em que assisti à cena, a beleza do lixo arruinar-se. As cores desmancharem-se, dissiparem-se e escorrerem pelo chão transformadas em chorume. A graciosidade que eu há pouco vira foi destruída pela realidade. Pessoas que se alimentavam do que as outras jogavam fora. Outras como eu e como você que lê este texto.
     “Ora! Nada mais belo que dormir sob o negro manto estrelado”. Poeticamente lindo! Mas pergunte àquele morador de rua que dorme sobre um duro banco de cimento nessas várias praças mal cuidadas do Recife se é poético e esteticamente agradável o que ele vê e sente todas as noites. Questione se o manto estrelado o aquece nas noites frias e chuvosas. Indague-o a respeito dos seus pensamentos antes de dormir. Compare. Verifique se ele está preocupado com que roupa vestir no dia seguinte, com a festinha do fim de semana...
     O fingimento poético é claro. É nele que fechamos os olhos e moldamos a realidade para que ela nos pareça adequada e suportável. A vida, para essas pessoas, não é uma colorida tela de Kandinsky. É a solidão e a angústia representadas por Hopper, é “o grito” de Munch suprimido pelo anonimato dos rostos em “os amantes” de Magritte.
     A cidade do Recife me encanta; desde que me mudei para cá, em 1998, sou apaixonado por ela. Mas a noite traz consigo dor e agonia. Eu, no entanto, nunca saberia das suas existências se não fosse o “olhar poético”, o olhar sensível da realidade camuflada pela mídia e pela política.
     Não se preocupe, essa luta não é sua. É de Maria, José, Antônio, Ana, João, Francisca, Severino... Por que se incomodar e lutar por esses “vagabundos”, “preguiçosos que não querem trabalhar”, “mendigos nojentos”, “drogados”, “maloqueiros”... ?
     Esta noite, um deles, um garotinho me pediu algo para comer. Comprei-lhe duas pipocas e uma água. Ele, contente, comia apressadamente quando, de repente, pediu desculpas, ofereceu-me e falou que era a sua primeira refeição do dia. Já eram quase dez horas. Agradeceu e disse que só não me daria um abraço porque estava sujo.
     Não olhei ao redor, mas podia sentir que quase todos nos olhavam. Ajoelhei para ficar da mesma altura que ele e disse que não havia problema. Com inesperada alegria, ele me deu um abraço forte com os seus braços magros e disse que eu era uma pessoa especial. Depois sentou em um banco e voltou a comer.
     Peguei o ônibus e, no caminho para casa, notei que a “sujeira” invisível é que me fazia especial. Porque, naquele ônibus cheio de pessoas, eu me sentia o mais “limpo” dos seres.



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