E foi assim, num fim de tarde
típico da cidade, passando pelo Recife Antigo, que vi uma beleza incomum no
lixo. Em vez de desprezá-lo, como usualmente acontece, eu fiz diferente, olhei
pra ele com atenção e percebi a sua beleza oculta: agrupado de maneira disforme
e aleatória, suas multicores lembravam um quadro de Kandinsky.
Pouco depois, percebo que os
“bichos humanos” marginalizados tiravam daquela tela vívida o seu alimento. Ali
a sinestesia era concreta e perceptível: para cada tom, um cheiro incômodo.
Para cada pessoa, um sentimento angustiante, seguido de um calafrio.
Presenciei, naqueles poucos
minutos em que assisti à cena, a beleza do lixo arruinar-se. As cores
desmancharem-se, dissiparem-se e escorrerem pelo chão transformadas em chorume.
A graciosidade que eu há pouco vira foi destruída pela realidade. Pessoas que
se alimentavam do que as outras jogavam fora. Outras como eu e como você que lê
este texto.
“Ora! Nada mais belo que dormir
sob o negro manto estrelado”. Poeticamente lindo! Mas pergunte àquele morador
de rua que dorme sobre um duro banco de cimento nessas várias praças mal
cuidadas do Recife se é poético e esteticamente agradável o que ele vê e sente
todas as noites. Questione se o manto estrelado o aquece nas noites frias e
chuvosas. Indague-o a respeito dos seus pensamentos antes de dormir. Compare.
Verifique se ele está preocupado com que roupa vestir no dia seguinte, com a
festinha do fim de semana...
O fingimento poético é claro. É nele que fechamos os olhos e moldamos a
realidade para que ela nos pareça adequada e suportável. A vida, para essas
pessoas, não é uma colorida tela de Kandinsky. É a solidão e a angústia
representadas por Hopper, é “o grito” de Munch suprimido pelo anonimato dos
rostos em “os amantes” de Magritte.
A cidade do Recife me encanta;
desde que me mudei para cá, em 1998, sou apaixonado por ela. Mas a noite traz
consigo dor e agonia. Eu, no entanto, nunca saberia das suas existências se não
fosse o “olhar poético”, o olhar sensível da realidade camuflada pela mídia e
pela política.
Não se preocupe, essa luta não é
sua. É de Maria, José, Antônio, Ana, João, Francisca, Severino... Por que se
incomodar e lutar por esses “vagabundos”, “preguiçosos que não querem
trabalhar”, “mendigos nojentos”, “drogados”, “maloqueiros”... ?
Esta noite, um deles, um
garotinho me pediu algo para comer. Comprei-lhe duas pipocas e uma água. Ele, contente,
comia apressadamente quando, de repente, pediu desculpas, ofereceu-me e falou que
era a sua primeira refeição do dia. Já eram quase dez horas. Agradeceu e disse
que só não me daria um abraço porque estava sujo.
Não olhei ao redor, mas podia
sentir que quase todos nos olhavam. Ajoelhei para ficar da mesma altura que ele
e disse que não havia problema. Com inesperada alegria, ele me deu um abraço forte
com os seus braços magros e disse que eu era uma pessoa especial. Depois sentou
em um banco e voltou a comer.
Peguei o ônibus e, no caminho
para casa, notei que a “sujeira” invisível é que me fazia especial. Porque,
naquele ônibus cheio de pessoas, eu me sentia o mais “limpo” dos seres.

No comments:
Post a Comment