O meu texto começa com dois questionamentos genéricos: Quanto vale um sonho? O preço varia de acordo com o conteúdo ou o sujeito que o idealiza? Não prossiga com a leitura. Reflita ao menos alguns segundos e responda-os a si mesmo.
A
inspiração para esse texto surgiu há muito tempo. Certas coisas na vida são
assim: surgem e ressurgem até que o momento adequado chegue. É assim, caros
[poucos] leitores, que acredito que seja o Amor: um paradoxo irrefreável de
morte e vida, fim e recomeço, pois se assim não o fosse, seria uma mesmice
monótona, ideia que [talvez] graças aos desenhos de minha infância não é
compatível com o “mais belo dos sentimentos”. E é por isso que acho que a
inspiração é tão intimamente ligada com o Amor. [Perdoem-me o leve desvio de
foco, mas quem me conhece sabe que faço dessas coisas o tempo todo].
O
ingresso em universidades públicas no Brasil [que de “pública”, como se sabe,
tem apenas a inscrição para o vestibular] tem se tornado cada vez mais
competitivo e requisitado. Livros didáticos são caríssimos, bem como escolas
particulares de renome [em Recife, conheço uma dúzia delas, nas quais
(in)felizmente não tive condições econômicas para estudar]. Essas escolas têm
bons índices de aprovação nos vestibulares, reúnem alguns dos “melhores”
professores e oferecem ótima infraestrutura. Isso tudo “legitima” as
[absurdamente] elevadas mensalidades que deixam claro o público ao qual se
dirigem.
Como
alternativa mais prática, por focar exclusivamente no vestibular, e viável, por
ser pouco menos cara, há os “cursinhos” e “isoladas”, com seus professores,
que, pela fama, mais parecem celebridades do que propriamente docentes. Em
geral, são profissionais muito competentes, familiarizados com os exames
seletivos e que utilizam materiais didáticos próprios, bem mais enxutos e
práticos que os livros. Fatos que já convencem um sem número de alunos a se
matricularem.
Como
costumamos dizer em inglês “so far, so good” (até então, tudo bem). Mas
pensemos agora naqueles alunos de escolas públicas que não têm condições de
pagar por esses cursinhos e estudar com os “professores-estrelas”. Isso
significa que eles não serão aprovados? “Provavelmente” é o que você quer
responder e o que sua experiência de mundo ratifica, mas, por suspeitar que
irei contrariar o “senso comum” [afinal, induzi o leitor a pensar isso], você
dirá internamente um leve indignado “claro que não”.
Seria
ir de encontro aos fatos se eu dissesse que os alunos dos cursinhos e isoladas
não têm mais chance de passarem no vestibular; as estatísticas não me
permitiram enganar ninguém. Mas dizer que sem eles (os cursos e seus
professores) não se pode ser aprovado seria ainda mais absurdo.
Imagine
você, caro leitor que provavelmente passou por um desses cursinhos “mágicos”,
se para você é difícil conceber a ideia de que se não fosse por eles você não
estaria onde está, o que dizer, por exemplo, de um aluno terceiranista de uma
escola pública deficiente de infraestrutura, profissionais qualificados e
materiais didáticos apropriados? É um determinismo real, admito, [mas não
universal], que desestimula diversos estudantes, pois a privatização desse
sonho, deixa-o cada vez mais distante de torna-lo real.
Quantos
excelentes profissionais já perdemos por isso? Médicos competentes, advogados
honestos, professores humanos e dedicados, criativos músicos e artistas
desperdiçados, perdidos pela incapacidade de pagar (um cursinho ou uma
universidade particular) para realizar o sonho de ter uma graduação.
Privados
pelo empecilho institucional, instrumento de segregação, fantasiado sob o
título de “processo seletivo vestibular”. De justo, quase nada. De desumano, praticamente
tudo. A começar pelo conteúdo “amplo e interdisciplinar” [bullshit!]. De todo o
assunto estudado, menos de 40% é abordado nas justas avaliações que fazem adolescentes (em maioria) sofrerem,
chorarem e até desistirem ao longo de, no mínimo, um ano.
As
suas notas na escola pouco interessam. Tanto faz você desperdiçar todo o seu
Ensino Médio ou aproveitá-lo ao máximo em termos de aprendizado. Porque a eficiente tradução do conhecimento de um
estudante em um simples [frio e, a meu ver, vazio de significado] número é o
perfeito instrumento comparativo de quem sabe mais ou sabe menos ou, em outros
termos, de quem está ou não apto a ingressar no mítico Ensino Superior.
E
não pense o possível leitor que não me conhece que falo isso por despeito. Sou
estudante do segundo curso mais concorrido de uma universidade federal, mas
conheço muitos que gostariam e mereceriam muito mais que eu estarem onde eu
estou.
“E
quais seriam as propostas de mudança pra resolver o nosso problema?”

Bruno, que texto interessante! Apreciei principalmente a parte que você pergunta quantos bons profissionais já não perdemos por causa da desigualdade criada pelo vestibular. o economista Keynes e você poderiam ter uma boa conversa!
ReplyDeleteGostei muito do texto! E na minha opinião uma das medidas pra solucionar esse problema, seria que os filhos de todos os políticos estudassem em instituições públicas... (rsrsrsrs) Meu professor de física é um destes "professores celebridades", apesar disso é um dos melhores professores que já tive na matéria de física! rsrsr
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