Em
uma dessas noites chuvosas, em que a insônia se alia às lembranças evitadas,
comecei a pensar na vida com o objetivo de manter longe determinadas memórias.
Por alguma razão ainda desconhecida, fiz-me a simples pergunta “quem sou eu?”,
e imaginem o espanto ao perceber que eu não tinha a resposta.
Quem
sou eu? Tentei encontrar algo que desse um fim de forma satisfatória ao
questionamento, mas os longos minutos de esforço “psicológico-filosófico” foram
vãos. Então resolvi mudar a perspectiva – esse é um truque que faço há algum
tempo – sempre que não consigo responder uma pergunta ou resolver um problema,
dou-lhe uma nova interpretação.
Passei
então a considerar a seguinte questão: “quem sou eu para um determinado
alguém?”. Juntando as respostas e isolando os elementos comuns, teria a minha
resposta! Claro, “determinado alguém” teriam de ser pessoas que me conhecessem
bem e tivessem uma ideia concreta de quem sou.
Obviamente,
não tive coragem de sair por aí perguntado aos meus amigos e parentes quem eles
achavam que eu fosse – parece coisa de louco! Fiz diferente: tentei me colocar
no lugar deles e imaginar quais seriam as suas respostas – admito ser este um
recurso bem infantil, mas, no fim, acabou sendo divertido e até interessante.
Entretanto,
um pequeno (bem pequeno e seleto) grupo de pessoas me trouxe um novo desafio:
“quem sou eu para as minhas ex-namoradas?”. Elas não somente me conheceram
muito bem, como tiveram mais intimidade (não necessariamente sexual) do que
todas as outras pessoas que eu conheço. E mais: após o fim do namoro, elas,
certamente, passaram a me enxergar de outra forma. Talvez de forma não tão
positiva quanto no início. Talvez. Não, decerto. Definitivamente.
Bem,
a questão é que abandonei a busca (interminável) por saber quem eu sou e passei
a me perguntar “no que me transformei para elas?”. Mas essa, infelizmente, é
uma pergunta que restará suspensa.
Ainda
nessa noite, a essa altura, já madrugada, resolvi me deixar vencer pelas
lembranças que vinha evitando. Acendi a luz do quarto, caminhei até o
guarda-roupas e abri a porta da parte superior. Hesitei e segurei a respiração.
Expirei em seguida, com força incomum para o simples ato de respirar. Tirei as
coisas que estavam na frente e, do fundo, puxei uma caixa bonita, dessas de
presente que se compra em papelarias para darmos a pessoas queridas. Dentro
dela há provas materiais do que, um dia, foi felicidade.
Voltei
a sentar na cama, com a caixa sobre o colo. Suspirei e abri. Fotografias,
cartas, bilhetes, um anel, conversas de folhas rasgadas de caderno e um
pequenino vidro de perfume. Esse último item é o que (carinhosamente) chamo de
“doce aroma da tortura”. Olhei as fotos, li um ou outro bilhete e coloquei tudo
de volta na caixa.
Peguei
o frasco e fiquei olhando. Apaguei novamente a luz do quarto, acomodei-me na
cama e comecei a desrosquear a tampa arredondada. Depois de abrir, mesmo sem
nada enxergar, fechei os olhos, levei o vidrinho até o nariz e inalei o perfume.
O olfato me revelou lembranças felizes. Muitas. Uma enxurrada delas.
Espontaneamente,
uma lágrima escorreu até a minha boca e eu pude sentir, ainda entorpecido das
boas memórias, o seu leve gosto salgado e despertei daquele “sonho-passado”.
Uma overdose de doces memórias me trouxe a necessidade da salgada realidade.
Fechei novamente o frasquinho e coloquei-o junto aos outros objetos. A caixa,
guardei e não mais mexi.
“Lembranças
serão sempre lembranças até que o tempo se encarregue de torná-las olvidáveis
(ou não). A luta contra boas memórias é vã. Alimentar-se delas também, afinal,
não são nada além de uma realidade que existiu e acabou.” (Esse último trecho
foi roubado de mim mesmo em conversa com uma grandessíssima amiga).
