Sunday, March 10, 2013

Reflexões carnavalescas



                É carnaval. A alegria pelas ruas de minha cidade pode ser facilmente captada e absorvida. Particularmente, adoro o carnaval. Não por mim, pois não sou dos mais entusiastas para sair por aí pulando e cantando em meio à multidão. Mas a alegria dos outros é algo que me deixa estranhamente feliz.
                O Recife ainda possui um dos carnavais mais democráticos e acessíveis do planeta. E, a meu ver, um dos mais ricos em termos culturais. Pois bem, enganou-se o precipitado leitor que imaginou ser este um texto sobre o carnaval recifense (ou de qualquer outro lugar). Essa introdução foi apenas para situar a razão de ser do meu texto.
                O carnaval perdeu o seu sentido religioso, assim como quase todos os outros feriados da mesma origem cristã. Para muitos, é sinônimo de festa com muita bebida e sexo casual e, portanto, imensa alegria. Imagine você: as pessoas trabalham o ano todo, algumas raramente têm férias, e quando fevereiro chega é pura felicidade!  Parece mesmo quase impossível de discordar, mas uma tela de Hopper (especificamente “Hotel Window”) me trouxe três personagens para reconsiderar essa ideia.
                A primeira personagem é uma pessoa deficiente, capaz de se locomover apenas por meio de uma cadeira de rodas. Entre amigos e parentes, ouve as histórias mais fantásticas sobre as lotadas ladeiras de Olinda no carnaval. Os noticiários enfatizam os verbos “pular”, “dançar”, “subir”, “descer”... Como deve ser difícil para ela ter que aceitar isso. Então, caro leitor, veio a minha primeira lágrima.
                A segunda imagem é advinda de uma lembrança que me partiu o coração. Em dezembro de 2010, meu último ano como aluno no Colégio Militar do Recife, eu e alguns amigos da escola fomos ao IMIP (Instituto Materno Infantil de Pernambuco), distribuir brinquedos (e afeto) às crianças que lá estavam internadas. Era maravilhoso ver aqueles rostinhos alegres ao receberem um presente singelo como um carrinho de plástico ou uma boneca de marca sem grande visibilidade no mercado. Foi algo mágico saber que o que aquelas crianças queriam era apenas um brinquedo, independente de sua marca e preço.
                À medida que distribuíamos os presentes aos meninos e meninas de um andar, subíamos para o próximo. Em um deles, encontramos outro grupo que também estava a entregar brinquedos e alegrar os pacientes que lá estavam, e aquilo me deixou muito feliz. Seguimos até o outro setor cuja placa informava: oncologia. Lá, o procedimento era diferente, somente alguns podiam entrar e, antes disso, eram necessárias a higienização e a utilização de vestes adequadas. Segurei as lágrimas quando uma das enfermeiras disse que a maioria dos pacientes estava dormindo, sedada, para suportar todo o sofrimento ao qual é submetida uma pessoa em tratamento de câncer. Deixamos alguns brinquedos para serem dados quando acordassem e subimos.
                A caminho do último andar, nas escadas, eu ia enxugando as lágrimas, que logo tratariam de voltar. Aquele era o andar das crianças que precisavam fazer hemodiálise regularmente. Uma das enfermeiras veio logo agradecendo porque quase ninguém ia lá e, quando ia, entregava só as “sobras” dos brinquedos, aqueles que não foram escolhidos pelas outras crianças dos andares antecedentes – aquilo já fez com que eu voltasse a querer chorar. Entregamos os presentes, e os poucos que restaram foram deixados com as enfermeiras.
                Pois é, a segunda imagem foi justamente a daquelas crianças internadas, submetidas àqueles agressivos tratamentos, na luta pela vida. Estendida aos adultos, um sem-número de pessoas ocupando quartos de hospitais (quartos, muitas vezes, lotados e inadequados), que não poderiam brincar o carnaval. – Aqui, as minhas “segundas” lágrimas vieram.
                A terceira e última personagem simboliza os recicladores, chamados comumente de catadores. Um grupo oprimido, muito presente em nosso cotidiano. Ao longo do ano, essas pessoas que tiram o sustento do que, para nós, é lixo, são sumariamente ignoradas. O que você, astuto leitor, acha que ocorre no carnaval, momento em que eles estão mais presentes? Se merecedor do adjetivo que lhe atribuí, deverá ter respondido, no mínimo, “a mesma coisa, são ignorados”.
                Enquanto a maioria de nós, pessoas com condições de brincar o carnaval, comemora o período festivo, bebendo, pulando, dançando e cantando, aquelas “pessoas invisíveis” estão lá, em meio à multidão, tentando pegar as latinhas de alumínio jogadas pelo chão para vender e receber uma mixaria para poderem “subviver” [neologismo]. Matando a sede com os restos das bebidas, “silenciando” a fome, suprimindo o desejo de estarem, como os outros, aproveitando o carnaval, descontraídos, divertindo-se, namorando... Mas a realidade dessas pessoas não as permite isso.
                Tim Maia, em uma de suas canções, diz: “na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer, enquanto o outro ri”. Apesar de se aplicar perfeitamente ao que acabei de retratar logo acima, acho desnecessário dizer que eu discordo da ideia de aceitar (ou simplesmente entender) essa realidade. Não, Tim, devemos é muda-la!
                Antes de encerrar o meu texto, considero relevante relembrar que não reprovo quem brinca o carnaval. Mas não posso deixar de dizer que o fato de “uns rirem, enquanto outros sofrem” não é, pra mim, algo “justo por contrapeso”. Porque, se para que uns possam rir, outros tenham que chorar, prefiro que o mundo seja desequilibrado e, dessa forma, todos possam rir e chorar pelos mesmos motivos.



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