É
carnaval. A alegria pelas ruas de minha cidade pode ser facilmente captada e
absorvida. Particularmente, adoro o carnaval. Não por mim, pois não sou dos
mais entusiastas para sair por aí pulando e cantando em meio à multidão. Mas a
alegria dos outros é algo que me deixa estranhamente feliz.
O
Recife ainda possui um dos carnavais mais democráticos e acessíveis do planeta.
E, a meu ver, um dos mais ricos em termos culturais. Pois bem, enganou-se o
precipitado leitor que imaginou ser este um texto sobre o carnaval recifense
(ou de qualquer outro lugar). Essa introdução foi apenas para situar a razão de
ser do meu texto.
O
carnaval perdeu o seu sentido religioso, assim como quase todos os outros
feriados da mesma origem cristã. Para muitos, é sinônimo de festa com muita
bebida e sexo casual e, portanto, imensa alegria. Imagine você: as pessoas
trabalham o ano todo, algumas raramente têm férias, e quando fevereiro chega é
pura felicidade! Parece mesmo quase
impossível de discordar, mas uma tela de Hopper (especificamente “Hotel Window”)
me trouxe três personagens para reconsiderar essa ideia.
A
primeira personagem é uma pessoa deficiente, capaz de se locomover apenas por
meio de uma cadeira de rodas. Entre amigos e parentes, ouve as histórias mais
fantásticas sobre as lotadas ladeiras de Olinda no carnaval. Os noticiários
enfatizam os verbos “pular”, “dançar”, “subir”, “descer”... Como deve ser difícil
para ela ter que aceitar isso. Então, caro leitor, veio a minha primeira
lágrima.
A
segunda imagem é advinda de uma lembrança que me partiu o coração. Em dezembro
de 2010, meu último ano como aluno no Colégio Militar do Recife, eu e alguns
amigos da escola fomos ao IMIP (Instituto Materno Infantil de Pernambuco),
distribuir brinquedos (e afeto) às crianças que lá estavam internadas. Era
maravilhoso ver aqueles rostinhos alegres ao receberem um presente singelo como
um carrinho de plástico ou uma boneca de marca sem grande visibilidade no
mercado. Foi algo mágico saber que o que aquelas crianças queriam era apenas um
brinquedo, independente de sua marca e preço.
À
medida que distribuíamos os presentes aos meninos e meninas de um andar,
subíamos para o próximo. Em um deles, encontramos outro grupo que também estava
a entregar brinquedos e alegrar os pacientes que lá estavam, e aquilo me deixou
muito feliz. Seguimos até o outro setor cuja placa informava: oncologia. Lá, o
procedimento era diferente, somente alguns podiam entrar e, antes disso, eram necessárias
a higienização e a utilização de vestes adequadas. Segurei as lágrimas quando
uma das enfermeiras disse que a maioria dos pacientes estava dormindo, sedada,
para suportar todo o sofrimento ao qual é submetida uma pessoa em tratamento de
câncer. Deixamos alguns brinquedos para serem dados quando acordassem e
subimos.
A
caminho do último andar, nas escadas, eu ia enxugando as lágrimas, que logo
tratariam de voltar. Aquele era o andar das crianças que precisavam fazer
hemodiálise regularmente. Uma das enfermeiras veio logo agradecendo porque
quase ninguém ia lá e, quando ia, entregava só as “sobras” dos brinquedos,
aqueles que não foram escolhidos pelas outras crianças dos andares antecedentes
– aquilo já fez com que eu voltasse a querer chorar. Entregamos os presentes, e
os poucos que restaram foram deixados com as enfermeiras.
Pois
é, a segunda imagem foi justamente a daquelas crianças internadas, submetidas
àqueles agressivos tratamentos, na luta pela vida. Estendida aos adultos, um
sem-número de pessoas ocupando quartos de hospitais (quartos, muitas vezes,
lotados e inadequados), que não poderiam brincar o carnaval. – Aqui, as minhas
“segundas” lágrimas vieram.
A
terceira e última personagem simboliza os recicladores, chamados comumente de
catadores. Um grupo oprimido, muito presente em nosso cotidiano. Ao longo do
ano, essas pessoas que tiram o sustento do que, para nós, é lixo, são
sumariamente ignoradas. O que você, astuto leitor, acha que ocorre no carnaval,
momento em que eles estão mais presentes? Se merecedor do adjetivo que lhe
atribuí, deverá ter respondido, no mínimo, “a mesma coisa, são ignorados”.
Enquanto
a maioria de nós, pessoas com condições de brincar o carnaval, comemora o
período festivo, bebendo, pulando, dançando e cantando, aquelas “pessoas
invisíveis” estão lá, em meio à multidão, tentando pegar as latinhas de
alumínio jogadas pelo chão para vender e receber uma mixaria para poderem
“subviver” [neologismo]. Matando a sede com os restos das bebidas,
“silenciando” a fome, suprimindo o desejo de estarem, como os outros,
aproveitando o carnaval, descontraídos, divertindo-se, namorando... Mas a
realidade dessas pessoas não as permite isso.
Tim
Maia, em uma de suas canções, diz: “na vida a gente tem que entender que um
nasce pra sofrer, enquanto o outro ri”. Apesar de se aplicar perfeitamente ao
que acabei de retratar logo acima, acho desnecessário dizer que eu discordo da
ideia de aceitar (ou simplesmente entender) essa realidade. Não, Tim, devemos é
muda-la!
Antes
de encerrar o meu texto, considero relevante relembrar que não reprovo quem
brinca o carnaval. Mas não posso deixar de dizer que o fato de “uns rirem, enquanto
outros sofrem” não é, pra mim, algo “justo por contrapeso”. Porque, se para que
uns possam rir, outros tenham que chorar, prefiro que o mundo seja
desequilibrado e, dessa forma, todos possam rir e chorar pelos mesmos motivos.

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