Certa
vez fui questionado por uma amiga qual ideia eu tinha do Amor. A resposta, que
não podia ser mais óbvia, nem menos precisa veio quase que imediatamente: “a
melhor possível”. Rimos, conversamos sobre qualquer trivialidade, mas aquele questionamento
ficou me atormentando por mais algum tempo, depois de terminado o nosso
encontro.
Na
verdade, nunca havia parado para pensar qual era a ideia que eu tinha do Amor,
embora soubesse que eu certamente passaria vergonha se tivesse de explica-la a
quem quer que fosse. Não sei se deveria, mas me vejo como um romântico quase
utópico e, em certa medida, antiquado. É claro que não espero encontrar uma
princesa que enxergue em mim o seu príncipe encantado, mas a ideia que tenho do
Amor envolve um quê desses encantos infantis.
Comecemos
pela análise do filme ao qual mais assisti até hoje. Quem me conhece bem
sabe que esse filme já foi visto por mim pelo menos 30 vezes, que conheço
várias falas, algumas falhas técnicas, choro sempre e não consigo enjoar de
assisti-lo. Aos que já estão curiosos, acrescento que um dos principais fatos
retratados foi verídico e aconteceu na noite de 14 de abril de 1912. Não
precisa pesquisar, na madrugada do dia 15 de abril desse mesmo ano, o RMS
Titanic naufragava.
O
que me encanta nesse filme? Primeiro, a ideia de amor à primeira vista (que já
confirmei ser possível). Segundo, porque ele mostra claramente que o amor,
quando sincero, não é regido pelo dinheiro. Terceiro, porque nos coloca em
xeque, fazendo-nos questionar se seríamos capazes de fazer tudo o que Jack e
Rose fazem um pelo outro. E eu poderia ficar aqui elencado um sem número de
razões pelas quais sou apaixonado por esse filme, mas vou optar por apresentar
a maior delas: a cena final do filme.
A
última cena do Titanic é em tudo metafórica. E é mais ou menos por aí que
começo a delinear a minha ideia sobre o Amor. Com a morte de Rose, os seus
porta-retratos são mostrados e um deles chama atenção: ela montada em um
cavalo. Aos mais atentos, em certa altura do filme, Rose promete a Jack que
montaria um cavalo com uma perna de cada lado. O retrato é a confirmação da
promessa cumprida por amor. Essa é a primeira metáfora (quase implícita) da
cena final e, a partir dela, pode-se inferir que o Amor é honesto, leal e
indelével. As segunda e terceira metáforas aparecem quando a Rose jovem volta
ao Titanic depois da morte. Todos no hall principal estão exatamente com a
mesma aparência do momento em que estavam a bordo do navio e aguardam a chegada
da “última passageira”. Jack, olhando o relógio, sugere que a todo tempo
contava os segundos para rever a amada. Daqui, tem-se a ideia de que o Amor é
paciente, forte e atemporal. A outra metáfora vem também quase implícita: sendo
o “céu”, o melhor lugar depois da morte, o filme nos mostra que o paraíso é
qualquer lugar onde o Amor está e, portanto, o Amor é transcendental,
metafísico e onipresente.
O
filme se encerra magistralmente com um lindo beijo, aplaudido por todos,
deixando que os créditos contemplem as lágrimas de quem assistia ao filme. Assim,
o Amor retratado em Titanic e visto sob a essa perspectiva é o mais próximo que
posso chegar da ideia de Amor ideal.
O
amor é, para mim, algo tão grandioso que não cabe em um só ser, há a
necessidade de compartilhá-lo, dividi-lo com alguém. Amamos não porque nos
sentimos incompletos, mas, ao contrário, porque nos sentimos repletos demais a
ponto de querermos doar um pouco de nós a quem está disposto a doar-nos um
pouco de si. E, assim, o Amor é também equilíbrio e cooperação.
Talvez
seja um contrassenso, mas eu acredito que o Amor não é perfeito, no entanto,
foi através dele que escolhemos buscar a perfeição. Não é perfeito porque é
subjetivo: cada um tem o seu modo próprio de amar e expressar o que sente. E é
isso que faz cada um tão especial.
O
Amor vai além do superficial, do material e do físico. Ele busca no interior de
outrem a essência, o conteúdo e a partir daí se realiza, buscando mostrar não
que uma pessoa precisa de outra, mas que uma tem o amor da outra e isso é tudo
de que se precisa...
